A escolha do lugar.
A experiência de viver em meio a natureza em algum grau preservada é deveras recompensadora. Vivenciar o silêncio característico da mata, que não é de certo silenciosa, pois sempre há um ruído ou outro a quebrar a ausência de som.
Na cidade forma-se um caldo sonoro encorpado que não se identifica os ingredientes. Refiro-me aos carros, as máquinas, as buzinas, os inúmeros aparelhos de TV ligados em diferentes canais, como uma multidão a falar ao mesmo tempo.
No campo essa riqueza sonora difere pois podemos distinguir os sons, eles se alternam, e embora eu mesmo não conheça a natureza de cada som, sei que existem pessoas capazes de identifica-los um por um. Só não o faço pois venho do lugar onde o caldo é grosso e indefinido.
O som da mata que tem seus cantos e encantos é quebrado pelo ruído de maquinas roçadeiras, tratores e alguma moto velha substituindo o cavalgar de outrora. Esses sons atravessam o ar a longas distâncias pois no silêncio o barulho é mais notado. As roças vizinhas fazem sua contribuição.
Além de conviver com a visão de pássaros variados e seus cantos, podemos observar que a floresta nativa possue suas flores que nada ficam devendo à mais caprichosa jardinagem do meio urbano. Junto a isso os aromas oriundos da floresta. Em frente a minha casa, por exemplo, num pedaço de área nativa uma trepadeira natural tomou conta de uma delas e esta ocasionalmente se enche de flores. O espantoso é que por um curto período da floração, essa planta exuberante em folhagem exala o perfume de rosas que se espalha por toda área ao redor da casa e mais longe ainda.
Posso dormir cedo se quiser. O silêncio e calma favorecem. Mas como as coisas mudaram, posso assistir TV, acessar internet ou também usando a rede conversar com amigos e familiares. Fazer cursos gratuitos à distância ou simplesmente assistir palestras através de vídeos no youtube dos mais variados temas.
Mas nem tudo são flores, aromas e cantos. Com certeza não. Morar em meio a mata supõe a convivência com seres da mata. E pra quem se propõe a ser ecológico, espera-se uma convivência minimamente pacifica. As vezes isso se torna difícil. Serpentes podem invadir o terreno próximo a casa. O medo é o maior problema. E o medo não é real. É só a não aceitação de uma possível realidade ainda no futuro. Normalmente serpentes não saem a caça dos humanos. Elas em sua grande maioria até se afastam de nós. Mas o que fazer? Precisamos ver onde estamos pisando. Um acidente com uma cobra coral verdadeira só ocorre se pisarmos nela ou pelo menos ela acreditar que isso irá acontecer. São doceis e não querem confusão embora seu veneno seja o mais potente entre as cobras no Brasil. O segredo é andar onde a vista percebe segurança. Para isso precisamos limpar o mato aos arredores da casa. Diferente dos índios, para nós de cultura urbana é quase apavorante a visão de uma serpente próxima, as vezes dentro de casa. Além da limpeza de toda área da casa e área agricultável, manter as portas fechadas. Aquela estória... por que entrou? Por que a porta estava aberta. Me contento com as janelas abertas.
Mas essas janelas não impedem a convivência nada pacífica com um número e variedade extraordinária de insetos. Exitem tantos e de tantos tipos, silenciosos e com poderes quase alienígenas, como voar no escuro e subir e descer as paredes da casa como quem anda em solo plano. Meu maior problema é o aparecimento ocasional de escorpiões amarelos e aranhas caranguejeiras. Quanto aos escorpiões aprendi a limpar o entorno da casa de aglomerados de paus e tocos, restos de material e principalmente casas de cupim, seu alimento preferido. As aranhas eu as ignoro enquanto estão na mata e fora de casa. Dentro de casa, depois de alguns avisos, eu as elimino como fiz aos escorpiões. A paz acaba aqui. Uma ação atenuante é construir a casa coberta com laje ou ao menos por um forro em toda a casa bem vedado e nas janelas uma tela fina para impedir a entrada de insetos. Desse modo até a noite as janelas podem ficar abertas favorecendo a entrada da brisa sem o risco de ser picado ou incomodado por vizinhos um tanto beligerantes.
Além dos insetos, na época das chuvas vem os problemas de lama no terreno, e dificuldade de acesso em certos trechos da estrada para a cidade. Mas como vemos hoje isso não é mais privilégio só do campo. As cidades sofrem com as chuvas em grau ainda maior hoje em dia. Uma vida pouco dependente do meio externo, talvez uma aposentadoria, minimiza esses problemas, pois o ir e vir é menos necessário.
Um ponto forte do campo é a baixa densidade demográfica. Isso significa um pouco de isolamento social. Então será muito dependente do temperamento de cada um, no seu momento particular, o grau de contentamento com essa realidade. Eu particularmente oscilo entre querer ficar só e querer ver gente e conversar. Existem muitos barzinhos, mais para botecos em todo canto. E eu já os frequentei à exaustão. Cheguei a conclusão que a solidão me vestia de forma mais apropriada e elegante. Quebro a solidão em minha própria companhia e frequentemente usando a tecnologia. Quanto aquele mito que as pessoas no campo são maravilhosas. É mito. Pessoas são pessoas em qualquer lugar. Cada uma em sem momento, com seus dramas, seus defeitos e suas qualidades. O que talvez mude, é que com a vida menos estressante do campo, as pessoas tendem a serem mais tolerantes com a reação do outro, pois geralmente não estão tão ávidas por soluções imediatas. Mas cuidado. As pessoas reagem as nossas ações e reações. O que vivemos na cidade, no campo dos relacionamentos, viveremos no mato, se não mudarmos em nada.
Ter uma propriedade rural improdutiva, apenas para morarmos em meio a mata pode não ser viável se não tivermos muitos recursos. A solução é produzir ao menos para sustentar a manutenção dos espaços, o controle do mato e manter a jardinagem em dia, tarefas bem cansativas principalmente para aqueles com forças reduzidas pela idade ou pela obesidade. Queria dizer sedentarismo. Pode nem ser obeso. Embora eu recomende a qualquer um fazer atividades no campo, mexer com a terra, plantar uma árvore, uma flor, um pé de alface, sei que nem sempre é possível dar conta de tudo. Uma ajuda paga, mão de obra local é uma solução que além de deixar sua propriedade do seu gosto do seu jeito, ajuda a uma outra família no seu sustento. O que quero dizer que o recurso para o pagamento dessa mão de obra deve sair da propriedade. Normalmente é necessário estudar e decidir em que investir com o objetivo desse retorno. Como em qualquer empreendimento na cidade, no campo também iremos precisar de capital de investimento e do capital de giro, para ser usado enquanto o retorno não vem. Como em qualquer outro negócio existe o risco do retorno falhar. Pragas, geadas, falta ou excesso de chuvas... é bom ter mais de uma bala na agulha. Os empréstimos e financiamentos para o pequeno produtor rural com declaração de aptidão ao PRONAF (DAP) são burocráticos e de pouco valor monetário. Não resolve um ano inteiro de gastos e investimentos, mas pode ajudar.
Decidido, estudar a cultura, ou criação, usar a internet, buscando no Google material para estudar. Outra ferramenta muito boa é o youtube. Tem videos explicando ou falando de praticamente tudo. Alguns muito bons. Se munir de informação é um bom antidoto para o veneno erro.
Após algum tempo de esforço e trabalho, com determinação os frutos virão. è gratificante poder gerar renda e emprego de forma sustentável e ao mesmo tempo desfrutar de uma medida maior de paz, silêncio e introspecção. Daí para o contato interno, como o deus interior, com a Divindade existente em cada um de nós é questão de tempo. Pro que viver no interior é a busca do interior, de si. de Deus, do outro, do |Todo.
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